Sunday, January 08, 2012
Thursday, February 24, 2011
Sei que vou atingir o alvo
Friday, December 31, 2010
Uma noite
Wednesday, October 13, 2010
Wednesday, September 15, 2010
Thursday, August 05, 2010
Monday, June 14, 2010
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura
nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede
infinita.
Carlos Drummond de Andrade
Wednesday, April 28, 2010
Só querendo não mais que não querer
Wednesday, March 17, 2010
Uma Faca nos Dentes
Wednesday, December 30, 2009
Caminante no hay camino
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
...
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
...
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
...
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.
...
...
António Machado
Friday, October 23, 2009
Quiero un amor feroz de garra y diente
Quiero un amor feroz de garra y diente
Que me asalte a traición a pleno día
Y que sofoque esta soberbia mía
este orgullo de ser todo pudiente.
Quiero un amor feroz de garra y diente
Que en carne viva inicie mi sangría
A ver si acaba esta melancolía
Que me corrompe el alma lentamente.
Quiero un amor que sea una tormenta
Que todo rompe y lo renueva todo
Porque vigor profundo lo alimenta.
Que pueda reanimarse allí mi lodo,
Mi pobre lodo de animal cansado
Por viejas sendas de rodar hastiado.
Alfonsina Storni
Tuesday, October 06, 2009
Tuesday, September 15, 2009
para ouvir-te sonhar
...
Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada
...
alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler
...
alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios
...
alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar
...
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António José Forte
Tuesday, July 21, 2009
o lugar do morto
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ao teu lado, no lugar do morto, enquanto
conduzes a conversa a uma frase sem
preparação. chegámos tarde à praia,
como a quase tudo. o vento levanta o
pó do parque de estacionamento e não
saímos do carro. não sei a resposta certa
e por isso represento mal o meu papel secundário.
limito-me a ficar em silêncio, onde
sempre me senti mais confortável.
um lugar sombrio, discreto, abrigado
e ainda assim, segundo dizem, o mais perigoso.
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Tiago Araújo
Sunday, June 21, 2009
Para abrir o tempo
Wednesday, April 08, 2009
Paradoxos
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Thomas Macfarlane (in Einstein e Buda - Palavras Comuns)
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Wednesday, March 04, 2009
O alheio espreita-nos da sombra
Wrong Awakening by Peter Gric
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pelas leis que conhecemos das coisas. Todos os dias, faladas nos
momentos, esquecem, e o mesmo mistério que as trouxe as leva,
convertendo-se o segredo em esquecimento. Tal é a lei do que tem
que ser esquecido porque não pode ser explicado. À luz do sol
continua regular o mundo visível. O alheio espreita-nos da sombra.
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Bernardo Soares in Fernando Pessoa
Sunday, January 11, 2009
A noite abre meus olhos
...
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
...
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
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A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
...
o amor é uma noite a que se chega só
...
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José Tolentino Mendonça (1965)
Monday, December 15, 2008
Outono
Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.
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Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.
...
Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.
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Mas os pais disseram olha é outono.
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Russell Edson (1935)
Tuesday, November 25, 2008
Desencontro com a vida
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o corpo, vais tocar o centro do céu,
arrastas nesse esforço as nuvens, a paisagem
que foi ficando para trás,
quase não respiras com a mansa
saudação das ondas.
...
Se procuras o que de ti escapa
deves saber que nem sempre
a alma serve de fornalha
às aparas do desencontro com a vida.
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Aos poucos vais percebendo
a nota dissonante das noites
no que persiste ser o talismã
dos afectos, o sexo.
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Quando tocares o centro do céu,
seja o que isso for,
perceberás que as portas
continuam empenadas
e a tua digamos vida
um castelo indefensável.
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Fernando Luís Sampaio
Thursday, November 20, 2008
Thursday, October 30, 2008
Monday, October 20, 2008
Morre e transforma-te
...
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Quero elogiar o ser vivo que aspira morrer na chama
Na primavera das noites de Amor.
Onde recebeste a vida, onde a deste
Fixou-se uma estranha vertigem
Perante a chama silenciosa.
...
Já não ficas encerrada no vazio da sombra.
Um novo desejo te chama
Para um mais alto Amor.
...
Nenhuma distância te pára.
Voas para Ele fascinada.
E tu, o amante da luz
Nela te queimas como uma borboleta.
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Não és mais que uma sombra na noite da terra
Enquanto não tiveres compreendido esta lei:
'Morre e transforma-te!'
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Goethe
Saturday, October 11, 2008
O coração, se pudesse pensar, pararia
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Sunday, October 05, 2008
Animais que morrem...
Friday, October 03, 2008
Salvação?
Na ficção de D. H. Lawrence The Escaped Cock, Jesus regressa de entre os mortos e acaba por renunciar à ideia de salvar a humanidade. Contempla o mundo maravilhado, e pergunta-se:
"De quê, e para quê, poderia este turbilhão infinito ser salvo?"
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John Gray
(in Straw Dogs - Thoughts on Humans and Other Animals)
Friday, September 05, 2008
Sunday, August 31, 2008
O que não sou capaz de dizer dizendo-me
...
1. Um pequeno depósito de incredulidade
no fundo dos teus olhos.
2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).
3. A impressão de alguém olhando-te
atrás de ti.
4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente
(que só tu ouves dentro de ti)
5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.
6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.
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Manuel António Pina
Thursday, May 22, 2008
As palavras não são suficientes
Acorda com as mãos em concha
a defender a sombra onde fez casa
e permanece sentado. Os dias passam
na sua claridade e ele, imóvel,
doente de palavras, não as suporta,
não servem para nada. Imóvel,
não quer mais sentir-se ferido,
ameaçado. Dorme e acorda
nessa inactividade. Espera.
E expectante crê que um dia
a luz há-de encher o quarto.
Não se consegue levantar, não
consegue senão a consciência
desse instante vago, olhos fixos
no soalho ou rente às paredes
da casa, atento às sombras a quem,
horror, sorri. Assim o encontram
dias mais tarde. Como se estivesse
a rezar. Ele, cuja metafísica
era saber que as palavras não são
suficientes para nos tornar mais tristes.
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Carlos Bessa
Saturday, April 26, 2008
Existimos em relação
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Novalis
Tuesday, March 25, 2008
Saturday, February 16, 2008
Dá-me
Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra.
...
Não fiques ai imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz
...
Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!
...
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Carlos Edmundo de Ory
Sunday, January 27, 2008
Seremos nós a vertigem
Sunday, December 16, 2007
O verbo no infinito
...
Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar
...
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
...
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
...
E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjungar o verbo no infinito...
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...
Vinicius de Moraes
Monday, December 10, 2007
Thursday, November 22, 2007
Uma rua deserta
Saturday, November 03, 2007
Monday, October 08, 2007
Monday, September 24, 2007
Momento incandescente
A paixão é um momento incandescente do amor. O verdadeiro amor é aquele que se transcende naquilo que ama, e não aquele que fica prisioneiro daquilo que ama.
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De alguma forma fui um homem de uma só paixão. Ou, por outra, toda a paixão é a mesma paixão. Se ela se repete, ou se temos a impressão que revivemos uma grande paixão, é porque nenhuma paixão, mesmo a mais alta, em si mesma se esgota. Portanto, tem de ser perdida, reencontrada, reinventada, se não, é uma simples ofuscação.
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Eduardo Lourenço
Wednesday, July 25, 2007
Da ciência de voar
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