Sunday, January 08, 2012

In my beginning is my end

Venus and Cupid by Agnolo Bronzino


In my beginning is my end. In succession
Houses rise and fall, crumble, are extended,
Are removed, destroyed, restored, or in their place
Is an open field, or a factory, or a by-pass.
Old stone to new building, old timber to new fires,
Old fires to ashes, and ashes to the earth
Which is already flesh, fur and faeces,
Bone of man and beast, cornstalk and leaf.
Houses live and die: there is a time for building
And a time for living and for generation
And a time for the wind to break the loosened pane
And to shake the wainscot where the field-mouse trots
And to shake the tattered arras woven with a silent motto.

In my beginning is my end. Now the light falls
Across the open field, leaving the deep lane
Shuttered with branches, dark in the afternoon,
Where you lean against a bank while the van passes,
And the deep lane insists on the direction
Into the village, in the electric heat
Hypnotised. In a warm haze the sultry light
Is absorbed, not refracted, by grey stone.
The dahlias sleep in the empty silence.
Wait for the early owl.

In that open field
If you do not come too close, if you do not come too close,
On a summer midnight, you can hear the music
Of the weak pipe and the little drum
And see them dancing around the bonfire
The association of man and woman
In daunsinge, signifying matrimonie -
A dignified and commodiois sacrament.
Two and two, necessarye conjunction,
Holding eche other by the hand or the arm
Whiche betokeneth concorde. Round and round the fire
Leaping through the flames, or joined in circles,
Rustically solemn or in rustic laughter
Lifting heavy feet in clumsy shoes,
Earth feet, loam feet, lifted in country mirth
Mirth of those long since under earth
Nourishing the corn. Keeping time,
Keeping the rhythm in their dancing
As in their living in the living seasons
The time of the seasons and the constellations
The time of milking and the time of harvest
The time of the coupling of man and woman
And that of beasts. Feet rising and falling.
Eating and drinking. Dung and death.

Dawn points, and another day
Prepares for heat and silence. Out at sea the dawn wind
Wrinkles and slides. I am here
Or there, or elsewhere. In my beginning.


T.S. Eliot
(East Coker I - "Four Quartets")

Thursday, February 24, 2011

Sei que vou atingir o alvo

Sagittarius by Steel Eyes


Eu vou morrer: há esta tensão como a de um arco prestes a disparar a flecha. Lembro-me do signo Sagitário: metade homem e metade animal. A parte humana em rigidez clássica segura o arco e flecha. O arco pode disparar a qualquer instante e atingir o alvo. Sei que vou atingir o alvo.

Clarice Lispector

Friday, December 31, 2010

Uma noite

Maze by James Jean


Uma noite - quando já for grande - quero ser pequenina
e absorver as cores de sempre com o assombro alaranjado da primeira vez
Hoje é a noite

Uma noite vou para a rua rasgar o anonimato espesso da cidade, desperta-la para o encontro,
eternizar num gesto o "Senhor do Adeus"
Hoje é a noite

Uma noite vou andar de baloiço para o parque, esquecer se o que fui é o que quero ser
e encharcar de frio os pulmões
Hoje é a noite

Uma noite começo a fazer dieta das minhas 30.785 necessidades e passo a alimentar-me,
sem restrições, sem racionalizações, apenas e só do verbo dar-me-aos-outros
Hoje é a noite

Uma noite deixo de fazer planos para o futuro; como quem faz a lista do supermercado
e vive à procura das melhores promoções: de sonhos pré-cozinhados,
de afectos ultra-congelados, do sal dos dias às prestações
Hoje é a noite

Uma noite ponho a tocar, em versão loop, a música Haja o que houver
haja o que houver só saio do meu terraço interior quando já não tiver medo de haja o que houver
Hoje é a noite

Uma noite caminho - sem medo - o chão do fracasso;
e - lavrando com os pés a alma descalça - seguirei em frente
Hoje é a noite

Uma noite desligo computadores, temores, rancores, abismos interiores
e vou brincar com o Príncipe da Paz... até ser dia
Hoje é a noite

Uma noite deslizo para o silêncio; respiro tudo
e abraço cada um e o universo inteiro ao mesmo tempo
Hoje é a noite

Uma noite fixo um post-it, junto ao peito, junto à pele, a dizer em letras pequeninas:
Deus ama-me tal como sou. Do que é que estou à espera para O amar tal como É?
Hoje é a noite

Uma noite sento-me à beira do tempo e seduzo-o a demorar-se na percussão das conversas,
no timbre da compota a fervilhar, no odor do teu abraço
Hoje é a noite

Uma noite, todas as noites se fundirão no meu corpo
e, nua de mim, mergulho no mistério da escada de rubi
Hoje é a noite

Filipa Roncon (2010)

Wednesday, October 13, 2010

Horizonte

Clouds, Birds, Moon, Venus by Isaac Gutiérrez Pascual


O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

Wednesday, September 15, 2010

Naufrágio encantado

The Seducer by René Magritte

Feliz o homem
Que no momento do naufrágio
Confiante sorri
Entregando-se ao abraço do oceano
De possibilidades que o traga;
Consciente da certeza de encontrar
O canto e o colo d'uma sereia.

Nathalie Barcellos (2010)

Thursday, August 05, 2010

We are spiritual beings

by Yvonne McGillivray

...

We are not human beings having a spiritual experience.

We are spiritual beings having a human experience.

...

Pierre Teilhard de Chardin

Monday, June 14, 2010

Amar



Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura
nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede
infinita.


Carlos Drummond de Andrade

Wednesday, April 28, 2010

Só querendo não mais que não querer

L'Avenir des statues by René Magritte


Baço espelho de céu e mar e terra
e centelha não mais que reflectida
do fogo eterno que transmite a vida
e pura vela ao todo me desferra

não desisto de píncaros de serra
e não temo a dureza da subida
pois feita de abandono toda a lida
com prémio de conquista que desterra

só querendo não mais que não querer
pronto a toda a aventura que nem sei
morto mesmo ao desejo de morrer

renascendo na vida para ser
sem nenhuma prisão e só a lei
de não ter não ser tido e não me ter.

Agostinho da Silva

Wednesday, March 17, 2010

Uma Faca nos Dentes

Reconfiguration IV by Peter Gric


O MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS.
Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. A noite recebe as nossas mãos como se fossem intrusas, como se o seu reino não fosse pertença delas, invenção delas. Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída - a real, a única - e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham a ira, os que perdem o amor.

Já não há tempo para confusões - a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos. Não se pode confundir o amor a uma causa, a uma pátria, com o Amor. Não se pode confundir a adesão a tipos étnicos com o amor ao homem e à liberdade. NÃO SE PODE CONFUNDIR! Quem ama a terra natal fica na terra natal; quem gosta do folclore não vem para a cidade. Ser pobre não é condição para se ganhar o céu ou o inferno. Não estar morto não quer forçosamente dizer que se esteja vivo, como não escrever não equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas muito mais presentes na vida do que se julga e gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores.

A acção poética implica: para com o amor uma atitude apaixonada, para com a amizade uma atitude intransigente, para com a Revolução uma atitude pessimista, para com a sociedade uma atitude ameaçadora. As visões poéticas são autónomas, a sua comunicação esotérica.

Os profetas, os reformistas, os reaccionários, os progressistas arregalarão os olhos e em seguida hão-se fechá-los de vergonha. Fechá-los como têm feito sempre, afinal, e em seguida mergulharem nas suas profecias. Olharem para a parte inferior da própria cintura e em seguida fecharem os olhos de vergonha. Abandonarem-se desenfreadamente à carpintaria das suas tábuas de valores, brandirem-nas por cima das nossas cabeças como padrões para a vida, para a arte, para o amor e em seguida fecharem os olhos de vergonha às manifestações mais cruéis da vida, da arte e do amor.

MAS NÃO IMPORTA, PORQUE EU SEI QUE NÃO ESTOU SOZINHO no meu desespero e na minha revolta. Sei pela luz que passa de homem para homem quando alguém faz o gesto de matar, pela que se extingue em cada homem à vista dos massacres, sei pelas palavras que uivam, pelas que sangram, pelas que arrancam os lábios, sei pelos jogos selvagens da infância, por um estandarte negro sobre o coração, pela luz crepuscular como uma navalha nos olhos, pelas cidades que chegam durante as tempestades, pelos que se aproximam de peito descoberto ao cair da noite - um a um mordem os pulsos e cantam - sei pelos animais feridos, pelos que cantam nas torturas.

Por isso, para que não me confundam nem agora nem nunca, declaro a minha revolta, o meu desespero, a minha liberdade, declaro tudo isto de faca nos dentes e de chicote em punho e que ninguém se aproxime para aquém dos mil passos

EXCEPTO TU MEU AMOR EXCEPTO TU
MEU AMOR

minha aranha mágica agarrada ao meu peito
cravando as patas aceradas no meu sexo
e a boca na minha boca
conto pelos teus cabelos os anos em que fui criança
marco-os com alfinetes de ouro numa almofada branca
um ano................dois anos................um século

agora um alfinete na garganta deste pássaro
tão próximo e tão vivo
outro alfinete........o último........o maior
no meu próprio plexo

MEU AMOR
conto pelos teus cabelos os dias e as noites
e a distância que vai da terra à minha infância
e nenhum avião ainda percorreu
conto as cidades e os povos os vivos e os mortos
e ainda ficam cabelos por contar
anos e anos ficarão por contar

DEFENDE-ME ATÉ QUE EU CONTE
O TEU ÚLTIMO CABELO


António José Forte

Wednesday, December 30, 2009

Caminante no hay camino

A Graceful Arc by Tony Hallas


Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
...
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
...
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
...
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.
...
...
António Machado

Friday, October 23, 2009

Quiero un amor feroz de garra y diente

Lionesse by Fred Weidmann

Quiero un amor feroz de garra y diente
Que me asalte a traición a pleno día
Y que sofoque esta soberbia mía
este orgullo de ser todo pudiente.

Quiero un amor feroz de garra y diente
Que en carne viva inicie mi sangría
A ver si acaba esta melancolía
Que me corrompe el alma lentamente.

Quiero un amor que sea una tormenta
Que todo rompe y lo renueva todo
Porque vigor profundo lo alimenta.

Que pueda reanimarse allí mi lodo,
Mi pobre lodo de animal cansado
Por viejas sendas de rodar hastiado.


Alfonsina Storni

Tuesday, October 06, 2009

O homem é uma crisálida que se lembra

Neglected EightyEight Butterfly by Joel Sartore

Não somos mais, na vida de ontem e na de hoje, do que as sucessivas metamorfoses, diferentemente adaptadas, do mesmo ser astral.
O homem é uma crisálida que se lembra.

Mário de Sá-Carneiro

Tuesday, September 15, 2009

para ouvir-te sonhar

Old Municipal Pool that used to sit on Mozambique Island by Mansir Petrie
...

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada
...
alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler
...
alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios
...
alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar
...
...
António José Forte

Tuesday, July 21, 2009

o lugar do morto

Melancholy by Edvard Munch
...
...
ao teu lado, no lugar do morto, enquanto
conduzes a conversa a uma frase sem
preparação. chegámos tarde à praia,
como a quase tudo. o vento levanta o
pó do parque de estacionamento e não
saímos do carro. não sei a resposta certa
e por isso represento mal o meu papel secundário.
limito-me a ficar em silêncio, onde
sempre me senti mais confortável.
um lugar sombrio, discreto, abrigado
e ainda assim, segundo dizem, o mais perigoso.
...
...
Tiago Araújo

Sunday, June 21, 2009

Para abrir o tempo

Starfather by DE ES
...
os ossos encheram-se de lodo e
eu comprei um albatroz empalhado
para te vigiar a alma - ao anoitecer
...
é com dedos incendiados que enterro
os dias - esta poeira brilhante
que se desprende dos cedros e cai
na fissura entre a máscara e o rosto
...
um lume maligno solta-se então das águas
a pele adquire o sabor do estuque e do bolor
não há morte ou paixão
que esta cidade não conheça - mas o corpo
...
não se lembra de tudo - a noite ardendo
desperta o coração - este palácio de plâncton
e de fantasmas com asas de sombra
...
depois
talvez se ouça o canto quase límpido
do mundo - cinzas onde mergulho
para abrir o tempo e visitar tuas mãos
que a lucidez do amor escureceu
...
...
Al Berto

Wednesday, April 08, 2009

Paradoxos

String Vibrations by Andrew Davidhazy
...
...
As concepções terrenas dos objectos comuns e da experiência quotidiana desabaram subitamente quando os físicos começaram a explorar a natureza do átomo. O mundo quântico, onde distinções como «ondas» versus «partículas» se esbatem, obriga a ciência a falar em termos de paradoxos.
...
O que dificilmente surpreenderia os místicos orientais. As suas explorações para além da experiência comum há muito que revelaram que as ideias do homem sobre o mundo não passam de instrumentos imperfeitos para apreciar fenómenos subtis. Longe de ser vago e inconsistente, o paradoxo obriga a mente a olhar para além das ´concepções normais´ e a ver a verdadeira natureza das coisas.

...
Thomas Macfarlane (in Einstein e Buda - Palavras Comuns)
...
...
...

"Se perguntarmos, por exemplo, se a posição do electrão
permanece sempre igual, teremos de responder «não»;
se perguntarmos se a posição do electrão muda com o
tempo, teremos de responder «não»; se perguntarmos
se o electrão está em repouso, teremos de responder
«não»; se perguntarmos se está em movimento,
teremos de responder «não»."
...
Robert Oppenheimer
...
...
"Ele está longe e está perto,
Ele move-se e não se move."
...
in Bhagavad Gita
...
...
...
"Pensar que as coisas existem ou não existem
é uma forma primitiva de pensamento."
...
Artur Eddington
...
...
"Dizer que «é» é tentar captar a permanência.
Dizer que «não é» é adoptar uma visão niilista.
É por isso que uma pessoa sábia não diz que
algo «existe» ou «não existe»."
...
Siddha Nagarjuna

Wednesday, March 04, 2009

O alheio espreita-nos da sombra

Wrong Awakening by Peter Gric
...

Todos os dias acontecem no mundo coisas que não são explicáveis
pelas leis que conhecemos das coisas. Todos os dias, faladas nos
momentos, esquecem, e o mesmo mistério que as trouxe as leva,
convertendo-se o segredo em esquecimento. Tal é a lei do que tem
que ser esquecido porque não pode ser explicado. À luz do sol
continua regular o mundo visível. O alheio espreita-nos da sombra.
...
...
Bernardo Soares in Fernando Pessoa

Sunday, January 11, 2009

A noite abre meus olhos

Summer Night by Piet Mondrian
...

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
...
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
...
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
...
o amor é uma noite a que se chega só
...
...
José Tolentino Mendonça (1965)

Monday, December 15, 2008

Outono

by James Jean
...

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.
...
Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.
...
Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.
...
Mas os pais disseram olha é outono.
...
Russell Edson (1935)

Tuesday, November 25, 2008

Desencontro com a vida

Checking the Seed for Growth III by J L Robbins
...
...
Numa braçada turva abandonas
o corpo, vais tocar o centro do céu,
arrastas nesse esforço as nuvens, a paisagem
que foi ficando para trás,
quase não respiras com a mansa
saudação das ondas.
...
Se procuras o que de ti escapa
deves saber que nem sempre
a alma serve de fornalha
às aparas do desencontro com a vida.
...
Aos poucos vais percebendo
a nota dissonante das noites
no que persiste ser o talismã
dos afectos, o sexo.
...
Quando tocares o centro do céu,
seja o que isso for,
perceberás que as portas
continuam empenadas
e a tua digamos vida
um castelo indefensável.
...
...
Fernando Luís Sampaio

Thursday, November 20, 2008

Meia-Noite Clara

Moonlight by Munch
...
Esta é a tua hora, ó alma, a do teu livre voo para lá das palavras,
Dos livros, da arte, apagado o dia, concluída a lição,
Quando tu emerges plenamente, silenciosa, absorta,
meditando sobre os temas que mais amas,
A noite, o sono, a morte e as estrelas.
...
Walt Whitman

Thursday, October 30, 2008

What does a fish know?


Giant Nebula NGC 3603 in the Milky Way Galaxy by NASA
...
...
What does a fish know about the
water in which it swims all it's life?
...

Albert Einstein

Pismis 24-1 by NASA

Monday, October 20, 2008

Morre e transforma-te


Dead Star Creates Celestial Havoc (Crab Nebula) by NASA
...

...
Quero elogiar o ser vivo que aspira morrer na chama
Na primavera das noites de Amor.
Onde recebeste a vida, onde a deste
Fixou-se uma estranha vertigem
Perante a chama silenciosa.
...
Já não ficas encerrada no vazio da sombra.
Um novo desejo te chama
Para um mais alto Amor.
...
Nenhuma distância te pára.
Voas para Ele fascinada.
E tu, o amante da luz
Nela te queimas como uma borboleta.
...
Não és mais que uma sombra na noite da terra
Enquanto não tiveres compreendido esta lei:
'Morre e transforma-te!'
...
...
Goethe

Cat´s Eye Nebula Redux (NGC 6543) by NASA

Saturday, October 11, 2008

O coração, se pudesse pensar, pararia

Dancer by Joan Miró
...
...
Todo o mundo, toda a vida, é um vasto sistema de inconsciências operando através de consciências individuais. Assim como com dois gases, passando por eles uma corrente eléctrica, se faz um líquido, assim com duas consciências - a do nosso ser concreto e a do nosso ser abstracto - se faz, passando por elas a vida e o mundo, uma inconsciência superior.
...
(...) Porque a inconsciência é o fundamento da vida.
O coração, se pudesse pensar, pararia.
...
...
Bernardo Soares in Fernando Pessoa

Sunday, October 05, 2008

Animais que morrem...

Man with Dog by Francis Bacon
...
Pensamos diferir dos outros animais por podermos encarar a perspectiva das nossas mortes, quando não sabemos mais do que eles o que a morte traz consigo. Tudo nos diz que a morte significa a extinção, mas não somos capazes de imaginar o que isso queira dizer. A verdade é que não tememos a passagem do tempo porque sabemos que a morte existe. Tememos a morte porque resistimos à passagem do tempo. Se outros animais não a temem como nós, não é porque nós saibamos alguma coisa que eles não sabem. É porque não são oprimidos pelo tempo.
...
(...)
...
Uma das poucas passagens em que vemos um autor europeu escrever que as mortes dos seres humanos não são diferentes das dos outros animais aparece assinada por Bernardo Soares.
...
"Se considero com atenção a vida que os homens vivem, nada encontro nela que a diferencie da vida que vivem os animais. Uns e outros são lançados inconscientemente através das coisas e do mundo; uns e outros se entretêm com intervalos; uns e outros percorrem diariamente o mesmo percurso orgânico; uns e outros não pensam para além do que pensam, nem vivem para além do que vivem.
...
O gato espoja-se ao Sol e dorme ali. O homem espoja-se à vida, com todas as suas complexidades, e dorme ali. Nem um nem outro se liberta da lei fatal de ser como é."
...
"Bernardo Soares" foi uma das múltiplas identidades imaginadas que o grande escritor português Fernando Pessoa assumiu. Certas verdades não podem ser ditas a não ser como ficção.
...
...
John Gray
(in Sobre Humanos e Outros Animais)

Friday, October 03, 2008

Salvação?

The Apotheosis of the Slavs by Alphonse Mucha
...

Na ficção de D. H. Lawrence The Escaped Cock, Jesus regressa de entre os mortos e acaba por renunciar à ideia de salvar a humanidade. Contempla o mundo maravilhado, e pergunta-se:

"De quê, e para quê, poderia este turbilhão infinito ser salvo?"
...
...
John Gray
(in Straw Dogs - Thoughts on Humans and Other Animals)

Friday, September 05, 2008

Infinite

...
...
If the doors of perception were cleansed,
Everything would appear to man as it is,
Infinite...
...
...
William Blake

Sunday, August 31, 2008

O que não sou capaz de dizer dizendo-me


...
1. Um pequeno depósito de incredulidade
no fundo dos teus olhos.

2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).

3. A impressão de alguém olhando-te
atrás de ti.

4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente
(que só tu ouves dentro de ti)

5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.

6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.

7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.

8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.

9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.

10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.

11. Esse país estrangeiro, o tempo.

...
...
Manuel António Pina

Thursday, May 22, 2008

As palavras não são suficientes

Workers by Pavel Filonov
...
Acorda com as mãos em concha
a defender a sombra onde fez casa
e permanece sentado. Os dias passam
na sua claridade e ele, imóvel,
doente de palavras, não as suporta,
não servem para nada. Imóvel,
não quer mais sentir-se ferido,
ameaçado. Dorme e acorda
nessa inactividade. Espera.
E expectante crê que um dia
a luz há-de encher o quarto.
Não se consegue levantar, não
consegue senão a consciência
desse instante vago, olhos fixos
no soalho ou rente às paredes
da casa, atento às sombras a quem,
horror, sorri. Assim o encontram
dias mais tarde. Como se estivesse
a rezar. Ele, cuja metafísica
era saber que as palavras não são
suficientes para nos tornar mais tristes.
...
...
Carlos Bessa

Saturday, April 26, 2008

Existimos em relação

Yellow-Red-Blue by Kandinsky
...
Existimos em relação com todos os pontos do universo, tal como com o futuro e o passado. É só da direcção e da duração da nossa atenção observadora que depende a questão de sabermos que relação preferimos cultivar, que relação será para nós a mais importante e a mais activa.
...
Novalis

Tuesday, March 25, 2008

Talvez

Madonna by Munch

...

Talvez eu não consiga quanto amo
ou amei teu ser dizer, talvez
como num mar que tu não vês
o meu corpo submerso seja o ramo
final que estendo já não sei a quem
...
Gastão Cruz

Saturday, February 16, 2008

Dá-me

Woman with Arms Folded by Chaim Soutine
...

Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra.
...
Não fiques ai imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz
...
Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!
...
...
Carlos Edmundo de Ory

Sunday, January 27, 2008

Seremos nós a vertigem

Bathing Woman by Miró
...
Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito
...
E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece
...
E saiam todos os sóis
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
- mas que saiam de joelhos
...
E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem
...
...
Alexandre O´Neill

Sunday, December 16, 2007

O verbo no infinito

Evolution by Piet Mondrian

...
Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar
...
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
...
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
...
E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjungar o verbo no infinito...
...

...
Vinicius de Moraes

Monday, December 10, 2007

Esto es urgente

Nude with Calla Lilies by Diego Rivera
...
En qué lugar, en dónde, a qué deshoras
me dirás que te amo? Esto és urgente
porque la eternidad se nos acaba...
...
Jaime Sabines

Thursday, November 22, 2007

Uma rua deserta

The Village of the Mermaids by Delvaux
...
Não sei quantos terão contemplado, com o olhar que merece, uma rua deserta com gente nela. Já este modo de dizer parece querer dizer qualquer outra coisa, e efectivamente a quer dizer. Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta. Não há dificuldade em compreender isto desde que se o tenha visto: uma zebra é impossível para quem não conheça mais que um burro.
...
Bernardo Soares (336)

Saturday, November 03, 2007

If you bring forth

by Kahlil Gibran
...
If you bring forth what is within you
What you bring forth will save you.
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If you do not bring forth what is within you
What you do not bring forth will destroy you.
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Jesus

Monday, October 08, 2007

Normal people

Spettro di guerriero by Paul Klee
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"The only normal people are the ones

you don´t know very well"
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(Joe Ancis)

Monday, September 24, 2007

Momento incandescente

The Kiss by Edvard Munch


A paixão é um momento incandescente do amor. O verdadeiro amor é aquele que se transcende naquilo que ama, e não aquele que fica prisioneiro daquilo que ama.
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De alguma forma fui um homem de uma só paixão. Ou, por outra, toda a paixão é a mesma paixão. Se ela se repete, ou se temos a impressão que revivemos uma grande paixão, é porque nenhuma paixão, mesmo a mais alta, em si mesma se esgota. Portanto, tem de ser perdida, reencontrada, reinventada, se não, é uma simples ofuscação.
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Eduardo Lourenço

Wednesday, July 25, 2007

Da ciência de voar

Françoise, Claude and Paloma by Picasso
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Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.
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Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.
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Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.
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Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.
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Eduardo White